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terça-feira, 9 de setembro de 2008

AGORA, CHEGA!

Estou cansada!
Já suportei demais este casamento! Anos e anos de aflições e tormentos! Porquê fui me casar com o maior filho da puta que conheci? Ele pensa que sou um animal? Que ele é meu dono? Não! Eu sou uma mulher! Um ser humano! Eu tenho todo o direito de ser livre, e fazer o que eu quiser da minha vida. E, se estou cansada deste casamento,posso muito bem me livrar disso. Por bem, ou por mal.
Não aguento nem mais um dia vivendo dessa forma, como uma vitima de um ditador. Um homem (que nem merece ser chamado de homem)que não ama ninguém, além de si próprio. Você, no meu lugar, faria o mesmo que eu vou fazer.
Enquanto espero que ele chegue em casa, me lembro de todos os momentos que passamos juntos. Brigas, desentendimentos, traições, pobreza. Ou você aguentaria uma vida inteira vivendo na miséria, tendo que implorar pro marido até mesmo pra ele dar uns trocados pra comprar pão? Se ele dava dinheiro, dava reclamando, me chamando de gastadora. "Tem que aprender a economizar! Tá pensando que eu sou banco?"Enquanto isso, ele estava sempre bem vestido, dizendo que era a irmã que tinha dado a roupa nova. Pensando que estava enganando alguém.
Em todos os nossos anos de casados, ele nunca me contou quanto ganhava no seu emprego. Quando se aposentou, nunca me disse quanto recebia de aposentadoria.
Quem conseguiria viver com um marido que passa o dia fora, não diz pra onde foi ( embora hoje em dia,eu nem me importe ), e só chega em casa pra comer, dormir, e assistir a porra do futebol e a porra do jornal?
Até os nossos filhos o abandonaram, de certo modo. Eles trabalham, ou estudam. E, em momento algum se importam com o pai.
Algumas pesssoas, educadas por um conservadorismo hipócrita podem dizer que "eles estão errados, deviam retribuir tudo o que seu pai fez por eles", mas essas pessoas não nos conhecem. São o tipo de gente que julgam os outros com base em sua próprias vidas. Se é que suas vidas são perfeitas como eles dizem...
Mas eles dizem que meus filhos estão errados, e acham que eles não estão dando o devido reconhecimento ao que seu pai fez por eles. Mas é exatamente isso o que estão fazendo, retribuindo todo o desprezo que receberam de um pai que reclamava que os filhos não se vestiam direito, mas não dava um centavo pra eles comprarem uma peça de roupa.
Eu não culpo meus filhos, eu os entendo. Eu sempre lhes dei amor, e esse amor eles retribuem.
E agora,eu vou retribuir todo o "amor" que meu marido me deu. E quem me julgar errada,ao menos assuma sua hipocrisia.

O frango já está na panela. Coloco os temperos e a água na panela, ligo o fogo.
Depois, lavo a faca e coloco pra escorrer a água. Fico observando a faca, enquanto o frango cozinha.
Fico nervosa,amedrontada. Mas é preciso tomar uma decisão. Penso em tudo o que farei com a faca nesta noite. Não vou usar pra mais nada, então, pego ela e a enxugo.
Vou até o quarto, e coloco ela embaixo do meu travesseiro. Arrumo o travesseiro, pra ele não perceber nada. Enquanto saio do quarto, olho pro colchão. De cada lado, a marca funda de nossos corpos, com uma "divisória" mais alta no meio, representando anos de um casamento sem amor, sem carinho, sem toques de carícias.

***

Hora do jantar.
Jantei só, como sempre. Nenhum de nós precisa esperar pelo outro pra jantar juntos.
Depois que terminei, ouvi o barulho do carro. O maldito carro dele. Um carro velho, mas que ele gastava muito dinheiro com reformas e reposição de peças.
Ele guarda o carro. Entra em casa, se dirige até o fogão.
-A comida está quente?
-Tá.
-Cadê os meninos?
-Não vão dormir em casa hoje.
-E vão dormir onde?
-Na casa de algum amigo, ou de alguma namorada.
-Esses meninos não ficam mais em casa! Só sabem ficar saindo, gastando dinheiro com besteiras! Eles tem que aprender a cuidar da casa! Eu vou é parar de fazer as coisas pra eles, quero ver como eles vão se virar!
"Fazer as coisas pra eles"? Que coisas?
Esse cretino já passou da senilidade, só pode ser isso. Em sua mente distorcida, ele deve viver em um mundo imaginário.
Terminei de comer, e fui pro quarto. Ele terminou de comer, e foi pra sala, ver tv. Depois da tv, ele foi tomar banho. Eu fui me deitar. Ele saiu do banho e também se deitou. Eu pensei na faca embaixo do travesseiro. Ele começou a falar:
-É, esse mês a gente vai ter que apertar o cinto...
Ainda mais?, eu pensei.
-...o carro tá demorando pra pegar de manhã. Vou ter que trocar o carburador.
Ele continuava falando, e eu não ouvindo. Toda noite era a mesma coisa, ele só sabia falar da falta de dinheiro. Nós tínhamos uma casa que alugávamos, era o nosso ganha pão. Mas é como se a casa fosse só dele. Por isso, eu pensava na faca. Todos que tem uma casa pra alugar costumam viver bem, só nós que vivemos nessa merda!
Depois que ele parou de resmungar os problemas dele ( a única coisa que ele, como marido, dividia com a esposa...), ele se virou para o outro lado, pra dormir.
Eu fiquei esperando.
Eu esatava ansiosa, um pouco nervosa. Eu não ia dormir, mesmo que quisesse. Precisava ficar acordada, esperando ele dormir. Eu sabia quando ele estaria dormindo, assim que começasse a roncar. Eu ia esperar, e então, a faca ia ter um trabalhinho diferente esta noite.
Mas, infelimente, não foi o que aconteceu.
Eu peguei no sono antes disso.
Nem notei quando ele dormiu, e nem me lembro de ter ficado com sono. Só me dei conta de que havia dormido, quando acordei com ele me ciutucando, e me chamando:
-Acorda! Acorda!
-O que foi? Por que você tá me acordando?
-Eu tive um pesadelo! Sonhei que você estava me matando!
Olhei nos olhos dele. Ele parecia sincero.C om a cabeça, senti a faca embaixo do meu travesserio, do mesmo jeito que eu tinha colocado. Ele não tinha mexido nela.Tinha sido só um sonho mesmo. Me recuperei, e falei:
-E você me acorda só por causa disso?
Meu coração palpitava, mas eu fingia que estava calma, sem dar a mínima pra história dele. Eu não podia deixar ele perceber meu nervosismo.
-Parecia tão real...
Ignorei ele, e voltei pro meu lado. Ele voltou pro lado dele. Dormimos.
Mas, antes, não pude deixar de pensar na sorte que ele teve. Na sorte que alguns putos têm. Talvez exista algum "diabo da guarda" que protege os desgraçadamente maus.

(11.07.05)

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