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domingo, 11 de janeiro de 2015

CUMBE


CUMBE
Um erro que se tornou parte de nossa “cultura” atual é, quando pensamos no período em que havia escravidão no Brasil, os negros foram subjugados e aceitaram sua condição passivamente.  Como se poucos tivessem seguido Zumbi, mas a maioria apenas esperou pela princesa Isabel e sua “Lei Áurea”. Ledo engano. E a HQ CUMBE pode ser uma bela surpresa pra quem acha que não havia revoltas de escravos nas fazendas.
Escrita e desenhada por Marcelo D’Salete,  Cumbe é uma das melhores HQ’s nacionais lançadas este ano, e que surpreende positivamente pela forma como o tema é abordado.  São quatro histórias fechadas, mas com um tema em comum: a luta dos escravos por sua liberdade, indo contra seus senhores escravocratas, e o sistema das fazendas. E o autor não segue os clichês que muitos usam. Ao contrário, ele nos apresenta seus personagens e tramas de forma que não nos remete à nenhuma história já conhecida pela mídia, como filmes e livros.
“Calunga”, a história que abre o álbum, é sobre o amor entre um homem que sempre é castigado por suas rebeldias na fazenda, e uma mulher que está confortável em seu papel dentro da fazenda. Ele planeja fugir com ela, mas a garota tem dúvidas se isso é mesmo algo a se fazer, ou se não seria melhor continua sendo uma escrava.
Em “Sumidouro” somos apresentados à um pouco das crenças dos negros, quando uma escrava fica grávida, o que desagrada seus patrões. Com pouquíssimos diálogos, essa história se aproxima do “sobrenatural”, e ao mesmo tempo a que mostra mais do dia a dia das fazendas, com as várias funções das pessoas, sejam escravos ou funcionários. Ao mesmo tempo, ela consegue ser a HQ mais “poética” do livro.
Na terceira história, “Cumbe”, vemos uma insurreição começando, com um grupo de escravos se preparando pra luta armada contra os capatazes dos senhores de escravos. Mas longe de se apenas isso, esse enredo básico serve pra conduzir uma trama obre confiança e traição, quando um dos escravos do grupo é acusado de ter entregado informações sobre a revolta pros seus senhores, o que pode acabar com os planos do grupo de fugir pra um quilombo.
Fechando a edição, “Malungo”, uma HQ que aparenta ser mais simples que as demais, mas na verdade é apenas uma mudança de “foco”, pois aparenta não ser sobre revolta, não da forma explícita como as anteriores, mas ainda assim, há um outro tipo de revolta dos escravos contra seus donos, na forma de uma criatura sobrenatural das lendas.
Além de apresentar histórias que fogem do óbvio, Marcelo D’Salete possui em estilo narrativo cheio de sensibilidade, seja no trato de seus personagens, seja na forma com que a trama flui nas páginas. O contraste do claro e escuro, junto com seu traço expressivo dão o tom da HQ, entre o realismo do tema e o simbolismo gráfico que só os quadrinhos permitem.
O autor sabe conduzir o leitor de forma a fazê-lo se sentir no próprio local onde a história se passa. Quase dá pra ouvir os sons da fazenda, de tão simples e profunda é a imersão na história. E os poucos diálogos só ajudam a nos fazer sentir como se estivéssemos lá, impedidos pelos patrões de conversar com outros escravos. E, quando há diálogos, eles são coloquiais e fluentes, outro grande mérito. Ao fugir da linguagem rebuscada da época (um vício literário que só atrapalha, na minha opinião), as falas dos personagens soam bem mais naturais. E, pra quem se sentir incomodado com a quantidade de palavras e expressões típicas dos escravos, há um glossário ao final da revista. Além de ajudar na compreensão delas, faz com que CUMBE tenha, sem querer, a função de servir como documentário sobre a época. Mas, ainda assim, a principal função de Cumbe, que é ser uma ótima história em quadrinhos, foi cumprida com todos os méritos.


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