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domingo, 31 de agosto de 2014

VERTIGO, O FIM DA REVISTA


Lei aqui meu texto sobre o fim da revista VERTIGO, uma revista que vai deixar saudades, apesar de seus títulos continuarem firmes e fortes pela Panini.


O FIM DA VERTIGO
O texto dessa semana é um pouco diferente dos habituais que escrevo. Vou comentar o “fim de uma era”, o cancelamento da revista VERTIGO, da Panini Comics. A revista está com sua última edição chegando às bancas, a de nº 51. Foram quase 5 anos de publicação ininterrupta (salvo algumas ocasiões em que a revista atrasou), que ajudaram a editora a consolidar o selo Vertigo no país. Um selo que sempre enfrentou problemas editoriais, cancelamentos, séries sem o final publicadas, entre outros problemas. Mas parece que, com a Panini, o selo está em um bom caminho.
Digo “está” ao invés de “estava”, pois o cancelamento da revista, ao contrário de editoras anteriores, não significa o fim das publicações do selo. A Panini já prometeu que vai continuar publicando as várias séries, novas e clássicas, na forma de encadernados, sejam para bancas, sejam para livrarias. Formato esse que agradou a maioria dos leitores, por sinal.
Nesses quase cinco anos de publicação,a revista tinha como propósito ser a porta de entrada do leitor desse universo. Infelizmente, ela nunca foi uma unanimidade. Várias das séries que foram publicadas não agradavam à todos os leitores, o que é normal, e as sereis publicadas em forma de encadernados eram sempre elogiadas, pois o leitor compra apenas o que ele quer ler, e não precisava gastar com outras séries que nem sempre o interessavam. Eu mesmo, confesso, sempre odiei “Vikings”, e “Casa dos Mistérios”. Eu só comprei todas as edições pra manter minha coleção de “Hellblazer”, e de “Escalpo”.
ESCALPO foi a série que mais me agradou de todas as publicadas. Uma história densa e cativante, com personagens mais realistas, mesmo para o habitual do selo, e narradas de forma perfeita por Jason Aaron, que sem pré surpreendia a cada edição. Pode-se dizer que foi o “Breaking Bad dos quadrinhos”. A saga de Dashiel Cavalo Ruim como agente do FBI para incriminar Lincoln Corvo Vermelho, o chefão do crime da tribo indígena, sempre como reviravoltas nas vidas dos personagens envolvidos, fazia com que o leitor não pudesse imaginar o que viria em seguida.
HELLBLAZER, apesar de ser meu personagem favorito, não estava em uma fase tão boa, apesar de muitos outros leitores gostarem. Primeiro com Mike Carey, que o fez quase um “Harry Potter adulto”, além de usar ideias já usadas por outros autores do personagem. Ao fim de sua passagem, a editora adiantou para a última fase, do Peter Millighan, que, embora tenha “rejuvenescido” Constantine, não teve, até o momento, grande brilho como escritor.
Entre as séries fracas (em minha opinião), eu destaco VIKINGS, que apelava para os clichês do gênero ( clichês esses que muitos fãs gostam, e elogiam, mas...). Foi a primeira série a ser retirada da revista, devido à polêmica que dividiu os leitores entre fãs e “haters”. Eu, particularmente, estava entre esses últimos. Além dos clichês, era muito chato ver personagens daquela época falando como se vivessem nos dias atuais. Em uma das histórias, por exemplo, um personagem fala sobre “ser um guerreiro até a medula”, mas duvido que a medicina da época estivesse tão avançada para as pessoas comuns saberem o que é isso.
CASA DOS MISTÉRIOS era outra que não agradava mesmo. Alguns arcos eram até bastante interessantes, mas ao começo de outro, parecia que não havia ligação alguma com o anterior. E os autores da revistas mantiveram esse “estilo” até o fim. Tudo se conclui de modo que nem é preciso ter lido tudo pra entender. Vai saber o que se passava na cabeça do roteirista...
HOMEM DO ESPAÇO, outra história que decepcionou, ao menos para mim. Brian Azzarello é um escritor que sempre me decepciona. Como em quase todas as histórias dele que li, começa bem, e acaba sem graça. Tudo muito rápido. O mesmo acontece com JOE, O BÁRBARO, que nem é tão ruim assim, mas o final podia ter sido bem melhor. PUNK ROCK JESUS, apesar do final também tudo se resolvendo rápido, foi uma história bem melhor. Sua proposta polêmica, acabou sendo mais uma crítica às religiões como instituição corporativista do que realmente à fé das pessoas. Sean Murphy fez um ótimo primeiro trabalho como autor.
Nas primeiras edições, as mini séries pareciam prometer mais. Se A TESSALÍADA foi apenas mais um caça-níquel dos fãs de Sandman, foi divertidinha. LUGAR NENHUM teve melhor sorte. Não que fosse um primor. Em vários momentos o ritmo caia bastante, como se Mike Carey não soubesse como desvincular a história de sua obra original (era uma adaptação do livro de Neil Gaiman, que por sua vez, adaptava o seriado de TV criado por ele), por outro lado, não foi pretensiosa, e garantia uma boa leitura.
Não posso esquecer de mencionar VAMPIRO AMERICANO, uma boa criação de Scott Snyder com Stephen king (que colaborou escrevendo o primeiro arco), junto do excelente desenhista brasileiro Rafael Albuquerque. Tirando uma ou outra história, a maioria dos arcos apresentavam uma visão bastante original da já manjada trama de vampiros que vivem à margem da sociedade, sendo perseguidos por caçadores. Alguns personagens criados nessa série conquistam o leitor de imediato. A série continuará sendo publicada em encadernados de luxo.
Mas, apesar de estar sendo cancelada, a revista Vertigo não trás consigo uma sensação de vazio, de um novo fim de publicação, de “mudanças radicais”, como em épocas e editoras diferentes. Ao contrário, é como um recomeço. Sei que, apesar de não mais visitar a banca de jornais mensalmente para comprar a revista, vou continuar comprando alguns títulos do selo em encadernados. Dá uma sensação de continuidade, apenas em um formato diferente.
Adeus, revista Vertigo! Vida longa ao selo Vertigo!

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

VIDA DE INSPETOR DE ALUNOS #45


Quem trabalha em escola sabe como são esses professores...
Curta a minha página no Facebook, e leia todas as minhas tiras e hq's.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

PAGANDO POR SEXO


Uma sincera história autobiográfica sobre o relacionamento de Chester Brown com prostitutas. Leia minha crítica aqui:

PAGANDO POR SEXO
Quando foi lançado aqui no Brasil, em 2012, toda a crítica especializada em quadrinhos elogiou muito este trabalho de Chester Brown. Eu, particularmente, fiquei com “o pé atrás”, pois eu havia lido, anos antes, sua A PLAYBOY, e não havia gostado. Resolvi reler, e acabei gostando. Talvez o tempo, minha idade, e novos conteúdos quadrinhísticos tenham me feito entender melhor a HQ. Assim, fiquei curioso pra ler PAGANDO POR SEXO, oportunidade que só tive muito tempo depois do lançamento.
Mas, independente de quanto tempo levei pra ler, a nova obra de Brown é excelente, tanto como complemento do anterior, quanto como obra independente. Na verdade, as duas hq’s não tem ligação, além do fato de serem obras autobriográficas do autor, e terem o tema de sua vida sexual. Não é necessário ler uma pra entender a outra. Claro que, pra quem leu a primeira, a segunda parece uma continuação. Afinal, em “A Playboy”, Chester conta sobre sua descoberta do sexo através das páginas da revista, em sua adolescência, e acaba em sua vida adulta, com aparentes problemas com as namoradas.
PAGANDO POR SEXO mostra ele em sua vida adulta, quando, após ter problemas com a namorada, decide não ter mais relacionamentos sérios, e, quando precisar de sexo, recorrer apenas à prostitutas. No começo da HQ, ele menciona a mesma namorada com quem termina em “A Playboy”, mas a HQ não é sobre o relacionamento dos dois, mas a história começa bem depois disso.
A princípio, os dois terminam, mas continuam morando juntos. Apesar da situação estranha de ter de dividir o apartamento com a ex e o novo namorado dela, Chester não se mostra nem um pouco preocupado. Seus amigos (que parecem ser, na história, uma espécie de “consciência social”, tentando fazê-lo entender que suas atitudes não são iguais à do resto das pessoas)estão sempre tentando ajudá-lo, dando opiniões, e servem na história de elo de ligação entre “o estranho mundo de Chester” e o nosso modo de ser “tradicional”.
Após mudar para um apartamento sozinho, ele chega a conclusão de que provavelmente nunca mais vai se envolver romanticamente com outras mulheres, e começa a buscar prostitutas para ter sexo. E passa a viver assim, de forma tranquila, sem culpa, nem se prender às amarras da sociedade.
Com uma diagramação bastante tradicional, cerca de 8 quadrinhos por páginas, dispostos de forma quase sempre simétrica, e com um traço simples, meio “linhas claras”, meio cartunesco, Chester narra todos os anos de sua vida desde que abandonou o compromisso de relacionamentos, as várias prostitutas com quem teve relações, as formas de  se encontrar uma garota de programa, e várias conversas com seus amigos, sempre contestando sua opção com das outras pessoas ditas “normais.”
E Chester Brown faz tudo isso com uma sinceridade impressionante. Poucas pessoas narraria as vida sexual de forma tão aberta quando a que vemos nas páginas desta HQ. É como se todo questionamento apresentado nessa HQ fossem nossos, e não do autor. Ele vive tranquilamente sua situação. Talvez por essa sinceridade é que ficamos absortos na leitura da obra, e passamos a entender o que o leva a procurar pelas mulheres da vida. Apesar de poucos de nós terem coragem de fazer o mesmo, dá pra entender os motivos que podem levar alguém a desacreditar dos relacionamentos amorosos. Mesmo que, em parte, isso se deva à apatia dele, que muitas mulheres podem achar desinteressante. Mas ainda assim, suas declarações sobre o amor romântico fazem sentido.
As conversas de Chester com seus amigos cartunistas são um ponto interessante. O autor dá liberdade à certas licenças dos fatos reais (poucas, como ele mesmo diz nos apêndices)para nos fazer questionar os pontos sobre relacionamento e sexo. Essas conversas sempre deixam algo no ar. Ele não usa o fato de ser o autor para dar sua opinião de forma conclusiva, como sendo o certo, mas faz o leitor participar da conversa, ao apresentar os vários pontos de vista para nossa reflexão.
Em contraponto com as cenas de conversa, as cenas com as mulheres na cama são quase “didáticas” (por falta de uma palavra melhor), no sentido de que ele narra como funciona o serviço de cada uma delas, as diferenças entre as que anunciam em revistas, as que vivem em bordéis, os preços, as idades, as novatas e as experientes, as que ficam mais amigas dele, as que nem querem conversa, as com quem ele se identifica a ponto de fazer amizade, etc. E até mesmo as que não o agradam, e as que tentam enganá-lo.
Chester não se intimida nem mesmo em retratar o seu próprio sexo, seja na dificuldade de manter a ereção às vezes, ou quando não está tão a fim de fazê-lo.
A forma como ele retrata essas cenas nos fazem olhar para a prostituição de outra forma. Se não com um olhar de aprovação, mas pelo menos passamos a compreender que são mulheres como qualquer outra.
Ao final da história, Chester Brown mostra que não quis fazer uma obra moralista, no sentido de nos dar alguma lição ou esclarecimento moral sobre o sexo, a prostituição, ou mesmo o amor. Mas apenas representar como funciona a busca pelo sexo, desvencilhado do amor, de forma crua e sincera. Nada mais que isso. Há vários apêndices onde ele comenta sua visão da prostituição, a regulamentação como profissão, e as diferenças entre o que se convém chamar de amor, e as diferenças entre a busca sexual. Esses apêndices são mais diretos no assunto, e podem nos fazer pensar seriamente sobre o tema. Mas, sem eles, a HQ funcionaria da mesma forma, como o relato sincero de um homem que sabe diferenciar amor de prazer sexual. Certo ou errado, é a sua escolha. Essa liberdade é o que importa.


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

AS COISAS QUE CECÍLIA FEZ


Uma HQ nacional e independente muito boa. Recomendo!


AS COISAS QUE CECILIA FEZ

Uma grande HQ não precisa necessariamente ser uma HQ grande. AS COISA QUE CECILIA FEZ  é uma prova disso. Uma história das mais simples, contada de forma enxuta, mas que, talvez por isso mesmo, seja um exemplo de competência no ato contar uma história usando os recursos da nona arte.
Apesar do formato grande, digno de uma graphic novel, a edição independente escrita e desenhada por Liber Paz é uma história que dá pra ler me poucos minutos. Mas o encanto que fica com o leitor dura muito mais.
A trama mostra a Cecília do título, uma mulher de meia idade, que, em um dia comum quando levava seu filho pra escola, é abordada por Letícia, uma mulher que ela não via à anos. Ela entrega um envelope para Cecília, contendo seu telefone e fotos de uma festa em que as duas participaram. Esse presente deixa Cecília um pouco abalada. E com dúvidas de telefona ou não para a Letícia. Mas esse não é o foco da história. O que contei aqui é apenas o prólogo, e parte do final da HQ. A história em si, é o que é mostrado em um flashback de Cecília, onde ficamos sabendo toda a história por trás das tais fotos.
Cecília se lembra de um dia em que conheceu um rapaz no cinema, e os dois acabaram se tornando bons amigos, com o que ela achou que seria potencial pra se tornarem namorados. Mas o rapaz havia saído a pouco de um relacionamento, e, durante uma festa na casa dele, a ex-namorada aparece, e os dois reatam. Sentindo-se rejeitada, Cecília fica bêbada, causa um escândalo na festa, mas acaba amparada por Letícia, uma ex-namorada de seu irmão.
As duas se tornam grandes amigas a partir de então (AGORA, SPOILER. Se não quiser saber, pule para o próximo parágrafo), uma amizade que acaba em um relacionamento lésbico.
Após cada uma seguir seu rumo na vida, a história volta para o presente, com Cecília na dúvida entre retornar o contato com Letícia, ou não.
Liber Paz Com uma história muito bem escrita, que utiliza os recursos dos quadrinhos de uma forma tão natural, mas que percebe-se um apuro técnico na utilização deles. Logo na primeira pagina, que parece uma apresentação com um poema, mas na verdade, estamos sendo “jogados” dentro da história de uma forma quase abrupta. Aliás, ser direto é o grande trunfo do autor. Ele não fica enrolando com o texto explicativo, mas deixa a história fluir conforme os personagens agem. Personagens que se explicam durante a história. Não é preciso saber os detalhes do antigo namoro de Rodrigo, porquê ele terminou com a namorada, e o que os faz voltar. Mas apenas os fatos ali mostrados é que importam, e o autor sabe muito bem disso, e não deixa o leitor perdido com informações sem utilidade para a trama.
Com um traço simples, de poucos cenários bem distribuídos pelas páginas, uma diagramação tradicional, mas um domínio de narrativa e perspectiva, Liber Paz trabalha as cenas de um jeito que nos faz ficar o tempo todo esperando pelo final. A leitura dessa HQ é como montar um quebra cabeça, onde ficamos ansiosos pra ver como tudo vai se encaixando até formar uma imagem. Dá até pra se perder na história do Flashback, e quando voltamos para o presente, por um segundo havíamos esquecido do que nos levou até essa história. Como acontece quando nos perdemos em nossa lembranças.
Mas, ainda assim, apesar de a história ser sobre o passado de Cecília e Letícia, o presente nos reserva ainda uma ótima forma de terminar uma história. Há uma conclusão que liga toda a trama, e que o faz de forma tão simples, que nos cativa justamente por isso. O epílogo após os créditos finais é genial!
Pra quem gosta de boas HQ’s que fogem do escapismo, com tramas ambientadas no mundo real, essa história é uma excelente pedida. Além de ter um ótimo preço. Custa apenas R$ 20,00, e pode ser encontrada nas comic shops.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A ARTE DE VOAR


Uma hq biográfica, sujo personagem se confunde com a história da Espanha do séc XX. Suas guerras, suas vitórias, e suas tragédias. leia minha crítica aqui: 

A ARTE DE VOAR
Se eu tivesse lido esta HQ a tempo, ela entraria na minha lista das melhores do ano passado, talvez em primeiro lugar. Muito bom descobrir uma bela história, meio que por acaso, e ser fisgado por uma leitura cativante, com uma história que nos toca fundo na alma.
A ARTE DE VOAR é uma HQ espanhola, escrita por Antonio Altarriba, e desenhada por Kim. Em cerca de 200 páginas, ela conta a história da vida do pai de Altarriba, que se suicidou no dia 04 de maio de 2001, se jogando da janela da casa de repouso onde vivia. Se filho, sentindo ao mesmo tempo a dor da perda, mas sentindo mais ainda a dor que seu pai sentia, e suas motivações para o suicídio, decidiu contar toda a história de sua vida, suas aventuras, e como elas o levaram à uma vida de velhice cheia de tristeza. Mas longe de ser uma história depressiva sobre a morte, a história da vida dele é das mais fascinantes que uma pessoa comum pode aspirar.
Antonio, o pai, nasceu em uma vila rural da Espanha, onde “lutava” diariamente pra mudar de vida, cansado do marasmo e niilismo da vida no campo. Ele queria uma vida ambiciosa, como a maioria dos jovens, queria aventura. E, ao sair da vila, acabou tendo participação, direta e indireta, nos grandes eventos que moldaram a história da Espanha do século XX, como a Guerra Civil, e a ditadura do General Franco.
Contada em capítulos, cada qual representado por um andar que seu pai teria passado na queda para a morte, as histórias mostram algum momento da vida de Antonio enquanto mostra como era a vida na Espanha durante esses anos difíceis. Vemos a ambição juvenil, as durezas da vida adulta, e até mesmo a alienação da sociedade, que parece ter esquecido da luta armada, aceitando a ditadura como algo comum em suas vidas.
No primeiro capítulo, o da juventude, vemos Antonio como qualquer outro jovem, tentando levar uma vida melhor, a busca de aventuras na cidade grande, empregos, garotas, e as amizades. Mas, longe de ter algo comum, o autor foca nos eventos “extraordinários” da vida dele, que moldaram sua personalidade inquieta, o que o levaram para uma vida adulta como parte da resistência contra as forças do ditador direitista Franco, no capítulo seguinte.
Enquanto enfrentavam os problemas da Segunda Guerra, a Espanha também tinha seus problemas internos, com as forças de Franco cada vez mais dominando o país, impondo uma ditadura que tentava liquidar com a cultura local, acusando todos de comunistas, e tomando as terras das famílias rurais, e obrigando os jovens a se alistarem no exército. Nesse cenário, Antonio só quer tentar sobreviver, de todas as formas. Ele vive em fuga, morando de favor em casas de amigos. Até entra para o exército, mas acaba desertando, devido às explorações sociais que presencia.
Ele se junta à resistência, combatendo os soldados de Franco, indo preso, fugindo, etc. Nesse capítulo, chama atenção todo o calor humano entre os soldados da resistência. As histórias de amizade, as descobertas. Parece que Antonio nunca teve uma vida, onde pudesse descobrir o mundo, e sua vida nas lutas acaba sendo sua forma de fazer essas descobertas, em grande parte “de segunda mão”, ouvido histórias de seus amigos. Mesmo assim, Antonio é o protagonista de sua vida, vivendo as aventuras da luta, entre outras, como poucos homens vivem.
É até triste quando o país muda, após a consolidação do poder de Franco. Muitas pessoas, incluindo aí alguns que lutavam contra o regime, se alienam , tentando viver como burgueses, praticando as pequenas explorações capitalistas, e até mesmo negócios ilegais. Parece que toda aquela luta foi em vão. Antonio tenta se adaptar á essa nova vida, se casando tendo filhos, trabalhando em uma empresa. Mas, no fundo, ele começa a se sentir como uma alma presa.
Esse é o foco do terceiro capítulo. Depois de uma vida sem raízes, sempre indo de um lugar ao outro, correndo, voando, lutando, a vida comum parece entediá-lo. Além dos motivos óbvios, aprece que toda a alienação social o sufoca ainda mais.
E nada do que ele tenta fazer parece aliviá-lo desse sofrimento. Acompanhamos Antonio começando a sofrer as depressões da vida de meia idade.
O quarto capítulo mostra os últimos anos de vida dele, em um asilo para idosos. Ele tenta se entregar à velhice como todos os outros, mas algo dentro de si parece não querer se entregar. Mas, infelizmente, o calor daquela vida cheia de aventuras não consegue suportar a vida em clausura.
Antonio, o filho, conta a história do pai se entregar a piedade que os anos derradeiros de seu pai o influenciem a contar a história com tristeza e pesar. Pelo contrário, a vida de seu pai é para o leitor das mais empolgantes. Chega a surpreender mesmo como uma pessoa comum passa pela história sem ser lembrada nos livros juntamente com os heróis conhecidos. Antonio Altarriba viveu e lutou de forma digna dos grandes personagens históricos, e sua vida poderia passar despercebida se seu filho não a contasse em essa bela Graphic Novel.
Kim, o desenhista, possui um traço simples, leve, mas realista na medida para que as cenas e locais retratados situe o leitor pela trama, ao mesmo tempo, utilizando de recursos gráficos lúdicos para mostrar o simbolismo de passagens chave da história.
Uma leitura tocante, mas não no sentido sentimental. Ela nos toca por seu ímpeto de bravura e aventura! A ARTE DE VOAR foi publicada aqui pela Editora Veneta, e é sua primeira publicação em quadrinhos no mercado. Esperemos que mais ótimos títulos sejam lançados.


terça-feira, 19 de agosto de 2014

domingo, 17 de agosto de 2014

ANTES DE WATCHMEN


Minha resenha sobre as únicas hq's do ANTES DE WATHCMEN que li. Uma adorei, outra odiei!


ANTES DE WATCHMEN
Acabei de ler meus primeiros (e únicos que pretendo ler) ANTES DE WATCHMEN: “Dollar Bill & Moloch”, e “Minutemen.” Com este texto, não quero fazer parecer que estou ordenando regras, nem que todo leitor deveria pensar o mesmo que eu, mas apenas explico o motivo de porque não pretendo ler nenhuma das outras edições dessa coleção, enquanto faço uma resenha crítica dessas duas que li.
Primeiramente, DOLLAR BILL & MOLOCH. A edição, que coincidentemente li muitas críticas negativas de leitores pelo Facebook, realmente foi uma decepção. A revista possui duas histórias, a primeira é sobre o vilão Molloch, que agiu desde os anos 40, e mais tarde se aposenta, quando chega à sua velhice e sofrendo de câncer. Pouco sobre ele é mencionado na mini série original, o que deixaria o autor livre para criar a vontade sobre a vida do personagem. Mas infelizmente, o roteirista J. Michael Straczynski não se mostra muito criativo, seguindo a linha fácil de recontar a mesma história já conhecida, mudando apenas o ponto de vista.
A história de Moloch é dividida em duas partes. A primeira, uma ótima leitura, diga-se, mostra todo o passado de Moloch desde o nascimento. Sua infância em um circo até se tornar um chefão do submundo, que usa suas habilidades de mágico para seus crimes. Bem redigida, a história termina nos anos 60, quando o vilão de certo modo se arrepende de sua vida criminosa, e, em parte por achar que a existência de um super herói onipotente, o Dr. Manhatan, pode “tirar a graça” dessa vida de mocinho e bandido. Também é mostrado as motivações dele, de uma forma bastante sutil, e competente.
Mas na segunda parte, tudo o que havia de bom na história desaba. Ele é contratado por Adrian Veidt (o herói milionário Ozzymandias), e tudo o que acontece então são apenas a participação de Moloch nos planos de Veidt. Planos esses que o leitor da mini série original conhece, e que cada detalhe nos faz “juntar os pontos” da execução desse plano, sob um ponto de vista diferente do que havíamos lido antes. Pra piorar, a história muda de ritmo, sendo contada de forma bastante “atropelada”, com os fatos acontecendo muito rápidos, e sem grande atrativo. Uma pena.
Já a história de DOLLAR BILL segue um pouco melhor (mas não muito). Afinal, o personagem pouco aparece na história original, então, ficamos conhecendo sua vida em acontecimentos nunca antes revelados. Apenas sua morte já era conhecida, o que deixa o final sem surpresa. E também pelo fato de ser uma história em edição única, não havia espaço para contar muito. Apesar de boa, não trás nada demais, justamente por isso. Len Wein é um grande autor do passado, mas essa história é apenas pra “tapar buraco”.
MINUTEMEN
Agora, enquanto DOLLAR BILL & MOLOCH apresenta a história clássica requentada, MINUTEMEN segue um caminho oposto. Preciso ressaltar que é justamente por esse motivo que ela é excelente! Conhecemos pouco do primeiro grupo de super heróis do universo de Watchmen. Há alguns poucos flashbacks, e trechos do livro “Sob a Máscara”, de Hollis Mason, o Coruja original (que, aliás, na época do filme dirigido por Zack Snyder, virou um bom documentário. Se tiver acesso, assista). Por esse motivo, Darwym Cooke pode criar a vontade com o grupo. E, por ser é um autor competente como poucos, foi o caminho que ele seguiu.
Em MINUTEMEN, Cooke ainda usou o recurso de contar a história do grupo pelos olhos de Mason, mas a história mostrada nessa edição é diferente da que lemos anteriormente. Ela a complementa. O que já sabemos da HQ original, Cooke apenas sugere. O estupro da Espectral pelo Comediante, por exemplo, acontece entre os capítulos. Em um capítulo, o grupo está unido, no seguinte, eles mencionam que votaram pela expulsão do Comediante por causa disso. Um recurso bastante sábio dele, e que preserva o tempo da trama para criar a história que ele realmente quer contar. E que história.
O aposentado Hollis Mason anuncia aos seus amigos de grupo que pretende escrever um livro de memórias sobre as vidas dos MINUTEMEN. Todos eles se mostram insatisfeitos com as histórias que o ex-Coruja pretende publicar. Em cada capítulo é mostrado um dos ex-heróis encontrando Mason, e, enquanto comenta que não está satisfeito com o livro, Mason, através de narrativa em primeira pessoa, relembra os fatos desde a formação do grupo até o misterioso desaparecimento do Justiça Encapuzada, quando começou a “Caça às Bruxas” nos primórdios da guerra fria.
Ele mostra outro lado das personalidades do grupo. Dá pra ler mesmo sem lembrar da mini original, pois MINUTEMEN possui uma alma própria. Informações sobre os heróis e vilões que não haviam sido contadas antes, características pessoais deles que aparentemente diferem das que conhecíamos (ou imaginávamos) dão mais vida á todos eles. Impossível não se surpreender com a revelação sobre a sexualidade do Capitão Metrópolis (eu juro que não lembro de nenhuma insinuação sobre isso na história clássica...), ou o lado egocêntrico de  Espectral, que, se na história original parecia manipulada por seu agente, aqui se mostra com tanta vontade de se aparecer quanto ele.
E, pra terminar (não vou entregar nenhum spoiler), a história ainda modifica um fato que havia sido sugerido na HQ original, mas o faz de forma tão brilhante que não desvirtua  a criação de Alan Moore. Esta HQ é uma ótima história sobre o lado obscuro das lendas, a desmistificação da imagem heroica que temos da era de ouro, e acrescenta mais profundidade aos personagens. Acredito que Alan Moore iria gostar dessa edição caso lesse.
CONCLUSÃO:
Ao meu ver, e pelas crítica que li, e quando digo críticas, estou falando de jornalistas especializados, não de leitores que criam um blog e pensam que entendem de criticas, me parece que o grande mal de Antes de Watchmen é justamente esse: não ter nada realmente novo pra contar, mas apenas ficar mostrando os fatos conhecidos sobre outro ponto de vista. Alguns leitores não se importam com isso, e acham legal, mas pense bem: é como ler várias versões da origem do Homem Aranha (coisa que a Marvel vive fazendo...), não tem a mesma graça se você já sabe o final. Não há nada que os novos autores podem acrescentar.
Agora, é reler a mini série dos anos 80. Essa, sim, um clássico!
Relembrando, esta minha crítica é apenas a minha opinião pessoal, não estou querendo impor a minha opinião nas cabeças de outros leitores. Mas, caso você tenha um argumento inteligente, e saiba fazê-lo de forma educada, fique à vontade para deixar um comentário.